Sempre que me surge uma situação propícia, mormente
pela simpatia contagiante de quem me rodeia, não me esqueço de
relembrar que nada sei de futebol e portanto nunca tentei ensinar
futebol a ninguém. Não posso negar que cheguei a fazer amizade com nomes
grandes do futebol português. Não posso também esconder que, hoje
ainda, alguns treinadores têm a bondade de permitir-me um demorado
diálogo sobre esta problemática.
Mas, apesar de tudo isto, nunca
me senti com a força psicológica bastante para sentir-me um especialista
nesta modalidade desportiva. Aliás, para mim, “quem só teoriza não
sabe”. E eu, no que ao futebol diz respeito, continuo encerrado na
“turris eburnea” da teoria. Então, o que venho eu fazendo, nas minhas
aulas e nas minhas conferências, sobre o futebol, e nas minhas conversas
com “agentes do futebol”? Pura interdisciplinaridade – nada mais! E
lembrando portanto aos meus interlocutores que não há conhecimento
científico que não tenha implícito uma filosofia inspiradora.
Entrelaçando
o particular (do futebol) com o geral (do mundo em que o futebol se
movimenta e desenvolve) é pouco saber só de futebol, quando se julga que
se sabe de futebol. Estiolar no recanto do futebol, com a convicção de
que o futebol não deverá informar-se, esclarecer-se com uma teoria e uma
síntese mais amplas - trata-se de um lamentável erro que, no século
XXI, já não se justifica. A prática não deve subordinar-se à teoria, mas
deve encontrar, nela, capacidade interpretativa e ainda a significação e
o sentido do que se faz. Não é por acaso que os grandes cientistas nos
deliciam com vastos conhecimentos, no âmbito da literatura, da arte, da
filosofia. É que não há conhecimento científico inovador, sem uma
recolha de dados, em campos que são humanos, mas não são científicos.
Sem uma cultura orientadora, não há ciência!
O meu Amigo Aurélio
Pereira, que ensinou futebol e mais do que futebol ao Paulo Futre, ao
Simão Sabrosa, ao Ricardo Quaresma, ao Luís Figo, ao Cristiano Ronaldo,
ao Rui Patrício, ao Adrien, ao William Carvalho, etc., etc., é um
cidadão de indubitável inteireza moral, sem a qual não teria sido (como
poucos, ou nenhum, no mundo todo, acrescento eu) um inigualável formador
de jogadores de futebol. Com a atribuição da Medalha de Mérito
Desportivo ao treinador Aurélio Pereira, a Câmara Municipal de Lisboa
praticou um ato justo, que restitui ao adjetivo o seu pleno significado.
De facto, o prémio é justo, no sentido de “merecido” e mais “devido”.
Não conheço melhor exemplo de amor e devoção ao futebol do que, de
essencial, emerge da prática profissional do diretor da formação do
Sporting Clube de Portugal – amor e devoção que se desenvolvem no mais
exato e genuíno sentido nacional. Com efeito, só entre os campeões
europeus de 2016, dez deram os primeiros passos e corridas e chutos, no
futebol, sob a sua orientação, sob o seu olhar verdadeiramente paternal.
Não tenho qualquer receio de escrever que Aurélio Pereira é uma
síntese viva dos mais altos valores que na prática desportiva se
aprendem e se vivem. Mas… quantos livros escreveu ele? Nenhuns! Quantas
conferências proferiu? Bem poucas! Na vida, no entanto, mais importante
que o esplendor das palavras é o mérito das obras. Acima do interesse
intelectual ou literário, situam-se os mais altos valores humanos. E
tudo o que o Aurélio Pereira tem feito está carregado de história, de
significações, de humanidade. A sua prática reporta-se, essencialmente, a
ideias, a juízos, a valores, com uma função condicionante e condutora.
Sem estas ideias, sem estes juízos, sem estes valores, não se entenderá
jamais a presença de Aurélio Pereira no Sporting C.P. e no futebol
português.
Do futebol tem este “senhor do futebol” um
conhecimento fraternal, magistral e despretensioso – é seu íntimo e
amigo de todos os momentos. Mas, porque sabe que não há jogos, mas
pessoas que jogam, para ele, gostar do futebol é principalmente gostar
dos rapazes que, com ele, aprendem a jogar futebol. Disse-me, certo dia:
“Tive convites para orientar equipas do Nacional da Primeira Divisão,
mas não fui capaz, nem de deixar o Sporting, nem de deixar a minha
rapaziada, a minha segunda família”. E, com um lampejo de emoção,
aduziu: “Posso estar errado, mas estou no futebol como estou na vida.
Sem determinados valores, não sei viver”. Eu aproveitei para sugerir: “E
o facto de colher tantos êxitos com o que faz também o não deixam sair
das suas atuais funções…”. Ele atalhou: “Sim, é verdade. Não sei se
tenho um grande domínio da pedagogia, mas os miúdos dão a entender que
gostam de trabalhar comigo”.
E, com a mão espalmada a indicar-me
as larguezas do mundo: “E, quando jogam no estrangeiro, não se esquecem
de mim, de enviar-me notícias”. E, com o bornal bem repleto de
vivências, confidenciou-me: “A mãe do Cristiano Ronaldo, se tem
problemas que a preocupam, não se esquece de consultar-me, de ouvir a
minha modesta opinião, com alguma frequência. É uma senhora que eu
admiro muito. É uma grande mãe e avó”. Fala-se muito de uma “Escola de
Qualidade” e coloca-se no centro da controvérsia uma particular
referência a três disciplinas fundamentais: a leitura, a escrita e o
cálculo, sem esquecer a aprendizagem de uma língua estrangeira, nem
deixar de incentivar a iniciação às tecnologias da informação. O Aurélio
Pereira, num mundo em mudança exponencial, bem pode ensinar aos
professores e educadores que só educa quem ama o que faz e quem ama
também os seus educandos, para além de tudo o mais.
Fui, na
companhia do Dr. José Lima, responsável pelo PNED/IPDJ, ao Estádio
Universitário de Lisboa, à cerimónia, presidida pelo Dr. Fernando
Medina, da atribuição da referida Medalha de Mérito Desportivo. Quando
chegou a minha altura de abraçá-lo, segredei ao Aurélio Pereira: “O meu
Amigo é meu companheiro de jornada intelectual. Tudo o que eu teorizo o
Aurélio pratica e bem melhor do que eu saberia fazer”. E, achegando-me
ternamente ao peito, concordou, num fio de voz: “É verdade! Eles não
sabem, nem sonham!”. Só há 3 ou 4 anos (não mais) eu dialogo com o
Aurélio Pereira, acerca do treino de jovens jogadores de futebol. Que o
mesmo é dizer: ele nunca precisou de mim, para nada, no âmbito do seu
trabalho diário. No entanto, durante um dos nossos habituais almoços (a
três: o José Lima, o Aurélio e eu) e depois de conhecer, em resumo, a
minha visão do treino, teve a bondade de afirmar: “Sempre fiz o que o
Manuel Sérgio defende, na sua tese de doutoramento. E muito antes de
conhecê-la. Pode crer!”.
Também ele não sabe, nem sonha, o bem
que me fez. Sou um simples estudioso do desporto em geral e do futebol
em particular, mas nunca treinei ninguém, nem nenhuma equipa, ou seja,
sou um teórico tão-só. E (se bem penso) quem só teoriza não sabe.
Verdadeiramente, só se sabe o que se vive. Um dos defeitos que eu
encontrei, no desporto, de há 50 ou 60 anos atrás, residia na separação
entre ciência e filosofia, entre cultura humanista e cultura científica,
entre o mundo da consciência e o mundo dos factos. Como se a filosofia e
a cultura humanista e o mundo da consciência nada contassem ao
rendimento, na prática desportiva. Sem alardes de promoção pessoal, o
Aurélio Pereira, há muito que sabe (bem antes de mim e sou mais velho do
que ele) que no futebol há pessoas que jogam futebol. E não basta, por
isso, treinar futebol, numa equipa de futebol. Está por fazer-se uma
homenagem do futebol nacional a Aurélio Pereira: é que este Homem é
mesmo um exemplo… como raros o são!