17/04/2011

FERNANDO (ABBA) »»» HOMENS DA LUTA

FRANCISCO MOITA FLORES


Omo e o Congresso 

Na verdade, tal como a senhora do anúncio, este congresso socialista lava mais branco


Um dos anúncios mais populares foi criado na década de setenta pelo detergente Omo. Uma senhora aparecia com uma toalha sujíssima, encenava que a ia lavar com detergente e, de repente, surgia com uma brancura imaculada. Por fim rematava com a frase: "Omo lava mais branco."
Estou convencido de que esta senhora foi ao congresso do Partido Socialista (PS). Pelo que ali se disse, ficou claro que o PS não teve responsabilidade na governação do país há mais de seis anos. Ficou clarinho que o PS não teve responsabilidade no aumento desenfreado de desemprego, que neste momento chega a setecentas mil almas, e que está imaculado no que respeita à duplicação da dívida pública que atirou Portugal para o ‘buraco negro’ onde nos encontramos.
Também é de uma alvura angélica no que respeita à existência do PEC 1, do PEC 2, do PEC 3 e do Orçamento de Estado que apertou o cinto dos portugueses até à rebelião. É claríssimo que o PEC 4 era o final do sacrifício, embora agora se perceba que teria de vir um PEC 5 e talvez um PEC 6. Ficou clarinho como a água que os socialistas são uns patriotas e os restantes partidos, que representam a maioria da população, são inimigos da Pátria. Porquê? Porque chumbaram o imaculado e virginal PEC 4.
Também ficou numa alvura celestial que o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, jamais disse que seria necessária ajuda externa quando os juros da dívida pública ultrapassassem os sete por cento. E que, tendo-os ultrapassado há tanto tempo, sempre a subir, a subir, mesmo quando outros dirigentes socialistas já reclamavam a ajuda externa, a verdade é que ficou claro que tudo aconteceu nos últimos quinze dias por causa do chumbo do novo PEC 4. Resumindo, o poder do detergente limpou qualquer história dos últimos seis anos, das verdades de ontem que já não eram verdades hoje.
E, finalmente, em nome da Pátria, os socialistas chamaram o Fundo Monetário Internacional (FMI), sendo certo que os restantes partidos agora passaram de anti-patriotas a gente que só pensa na conquista do poder.
É clarinho que o Partido Socialista que está no poder, não pensa em cedê-lo aos outros. Não por causa da Pátria, mas por causa dos próprios socialistas. Está certo. Na verdade, e tal como a senhora do anúncio, este congresso socialista lava mais branco.

IN "CORREIO DA MANHÃ"
10/04/11

ACOSMOS

1 – A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA



ALMORRÓIDA ESFOLADÍSSIMA


Estado está a cobrar mais 12 milhões 
de euros em impostos por dia

por Filipe Paiva Cardoso


Só nos salários, o governo está a exigir mais 5 milhões de euros por dia aos portugueses. Em três meses foram 2,53 mil milhões

O Estado está a cobrar mais 12 milhões de euros por dia em impostos aos contribuintes portugueses desde o início do ano. No total, e desde 1 de Janeiro último, as empresas e as famílias estão a dar em média 90,4 milhões de euros por dia ao governo, valor que no ano passado não atingia os 79 milhões diários de média no período - Janeiro a Março -, e que em 2009 não superou os 78 milhões de euros diários.

O aumento da carga fiscal permitiu ao Estado encaixar mais de 8,1 mil milhões de euros entre Janeiro e Março deste ano, mais 15% que em igual período de 2010 - isto segundo os valores provisórios da execução orçamental, mais uma vez só parcialmente divulgados. O crescimento na receita fiscal veio sobretudo dos impostos directos, com um crescimento de 21% para 2,95 mil milhões de euros. Nesta componente da receita fiscal, o Imposto Sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) vale normalmente 90% da receita total - em 2009, e no período em análise, o IRS valeu 88% dos impostos directos e em 2010 teve um peso de 86%.

Assim, e mesmo sem valores desagregados - que não foi possível obter -, é possível perceber que do crescimento diário da receita fiscal este ano, uma boa fatia virá dos salários. Assumindo que cerca de 86% da receita de impostos directos vem do IRS, calcula-se que de 1 de Janeiro a 31 de Março último, os contribuintes viram-lhes retirados 28,2 milhões de euros em IRS por dia, mais 4,8 milhões de euros diários que em 2010 e mais 1,5 milhões que em 2009. Graças ao crescimento da receita fiscal, assim como a uma quebra de 8% nos gastos com pessoal que ajudou a uma quebra sem precedentes na despesa corrente, as contas divulgadas apontam para uma redução de 60% no défice do Estado, ou seja, menos 1,53 mil milhões de euros que no primeiro trimestre de 2010.

"Tudo camuflado" Esta foi a terceira vez este ano que alguns jornais tiveram acesso a números parciais sobre a execução orçamental. Primeiro através do "Expresso", depois através do "Diário de Notícias" e agora novamente através do mesmo jornal, assim como da "TSF", do "Jornal de Notícias" e da Lusa. É novidade? O site do "Público" lembrava ontem que não, sublinhando que os números mensais referentes à utilização do dinheiro dos contribuintes pelo Estado por várias vezes foram usados conforme as vontades dos governos.

João Duque, presidente do ISEG, revoltou-se ontem com esta semitransparência. O alegado excedente que os números divulgados apresentam foram desde logo postos em causa: "Essas despesas estão todas camufladas, são uma mentira", afirmou João Duque em declarações à Lusa. "Muito provavelmente, não está contabilizado o efeito BPN e, portanto, não são contas credíveis. Qualquer pessoa que está num plano sério de poupança e realinhamento das contas faz exercícios imputando mês a mês aquilo que é a expectativa de despesa que vai ter, ou a assunção do prejuízo que vai ter com o BPN", disse.

IN "i"
16/04/11

PIANO FABULOSO


MIA COUTO


Pimenta Negra


Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos "ricos". Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.


O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias.
Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.


As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas.
Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.


Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma.
O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentados com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.


Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele.
Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.


A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores.
Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado "a luta pelo progresso"? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.


São nacionais mas só na aparência.
Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem crianças que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.


Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal.
Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.

NR: Desconhecemos em que periódico foi publicado este artigo.

CAUTELAS