24/10/2010

OS LUSITANOS

 


Migrações das tribos pré-românicas no território do atual Portugal:
Os lusitanos constituíram um conjunto de povos ibéricos pré-romanos de origem indo-europeia que habitaram a porção oeste da Península Ibérica desde a idade do ferro. Em 29 a.C., na sequência da invasão romana a que resistiram longo tempo, foi criada a província romana da Lusitânia nos seus territórios, correspondentes a grande parte do actual Portugal.
A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, um dos seus líderes no combate aos romanos. Outros líderes conhecidos eram Punicus, Cæsarus, Caucenus, Curius, Apuleius, Connoba e Tantalus.
Os lusitanos são considerados, por antropólogos e historiadores, como um povo sem história por não terem deixado registos nativos antes da conquista romana.[1] As informações sobre os lusitanos são-nos transmitidas através dos relatos dos autores gregos e romanos da antiguidade o que por vezes causa diversos problemas ou conflitos na interpretação dos seus textos.

Origem

Os antepassados dos lusitanos compunham um mosaico de diferentes tribos que habitaram PortugalNeolítico. Não se sabe ao certo a origem destas tribos celtas, mas é muito provável que fossem oriundas dos Alpes suíços e teriam migrado devido ao clima mais quente na península Ibérica. Miscigenaram-se parcialmente com os invasores celtas, dando origem aos lusitanos. desde o
Entre as numerosas tribos que habitavam a península Ibérica quando chegaram os romanos, encontrava-se, na parte ocidental, a dos lusitani, considerada por alguns autores a maior das tribos ibéricas, com a qual durante muitos anos lutaram os romanos.[2]
Supõe-se que a zona do centro de Portugal era habitada pelos Lusis ou Lysis que teriam dado origem aos Lusitanos. Os Lusis eram provavelmente povos do Bronze Final, linguística e culturalmente de origem indo-europeia e pré-céltica que numa época posterior vieram a sofrer influências hallstáticas e mediterrânicas, isto ao longo dos séculos VIII e VII a.C..[3]
Os Lusis foram referidos pela primeira vez no Ora Maritima de Avieno onde foram chamados de pernix, que significa ágil, rápido e é o adjectivo que se aplicava ao praticante de jogos de destreza física.[4]

Etnia segundo os autores da antiguidade

Os escritores da antiguidade identificaram duas etnias na península Ibérica, a ibera e a celta, e qualificavam os seus habitantes como sendo iberos ou celtas ou uma mistura das duas etnias. No entanto o conceito de ibero podia ser usado num sentido geral, isto é, num sentido geográfico, referindo-se ao conjunto dos seus habitantes, num sentido restrito a um conjunto de tribos com a mesma etnia, ou mesmo podia variar consoante o conceito da época, e o mesmo se pode considerar relativamente ao conceito de celta da Ibéria ou celtibero.[5]
Diodoro Sículo considerava os lusitanos um povo celta: "Os que são chamados de lusitanos são os mais valentes de todos os cimbros".[6] Estrabão diferenciava os lusitanos das tribos iberas.[7] Viriato foi referido como líder dos celtiberos.[8] Os Lusitanos também eram chamados de Belitanos, segundo Artemidoro.[9][10]
Indícios arqueológicos e pesquisas etnográficas relativamente recentes sugerem que os lusitanos estejam ligados aos lígures, possivelmente através de uma origem comum.[11] No entanto, a religião, a onomástica, nomes próprios e topónimos, e escavações nos castros lusitanos revelam tratar-se de um povo celta. Entre os autores modernos não existe consenso, são considerados iberos, lígures ou celtas.[12]

Tribos

Povos (populi) que constituíam os Lusitanos (Lusitani), conforme descrito na Ponte de Alcântara (CIL II 760):
  • Igaeditani
  • Lancienses Oppidani
  • Tapori
  • Coilarni ou Colarni
  • Lancienses Transcudani
  • Aravi
  • Meidubrigenses
  • Arabrigenses
  • Paesures

Língua e escrita


Línguas da península ibérica pre-romana. A língua lusitana assinalada como (L1).
As principais inscrições foram feitas em território português em Lomas de Moledo e Cabeço das Fráguas; a outra inscrição procede de Arroyo de la Luz (Província de Cáceres, Espanha) no território dos vetões.[13] Como exemplo segue-se a inscrição de Cabeço das Fráguas do século III d.C.:
OILAM TREBOPALA INDI PORCOM LAEBO
COMMAIAM ICCONA LOIM
INNA OILAM VSSEAM
TREBARVNE INDI TAVROM IFADEM[…]

REVE TRE[…]
Esta inscrição traduz-se habitualmente como: "[é sacrificada] uma ovelha a Trebopala, e um porco a Laebo, oferenda a Iccona Luminosa, uma ovelha de um ano a Trebaruna e um touro semental a Reve Tre[baruna(?)]".
As inscrições lusitanas (escritas em alfabeto latino) mostram uma língua celtóide facilmente traduzível e interpretável, já que conserva em maior grau a sua semelhança com o celta comum. A conservação do p- inicial em algumas inscrições lusitanas, faz com que muitos autores não considerem o lusitano como uma língua celta, mas celtóide. O celta comum perde o p- indo-europeu inicial. Por exemplo: "porc/om" em lusitano seria dito "orc/os" em outras línguas celtas como o celtibero, goidélico ou gaulês.

Reprodução de inscrições lusitanas em Arroyo de la Luz (Província de Cáceres)
Para estes autores, o lusitano mais do que uma língua descendente do celta comum, seria uma língua aparentada ao celta comum, ou seja, uma variante separada do celta, mas com muita relação a ele. O alfabeto latino, o sistema de escrita utilizado nas inscrições já era usado na península Ibérica pelos povos que habitavam junto ao mar, segundo informação de Artemidoro,[14] no princípio do século I a.C., época em que visitou a península Ibérica.
Os autores antigos diziam que as pessoas das diferentes tribos que habitavam a península Ibérica, a Ibéria, falavam línguas diferentes, mas não tinham dificuldade em entenderem-se umas às outras.[15] O que poderia revelar uma situação de possível bilinguismo ou até poli-linguismo na península Ibérica.

Guerreiro lusitano


Dizem que os Lusitanos são hábeis em
armar emboscadas e descobrir pistas;
são ágeis, rápidos e de grande destreza.
Usam um pequeno escudo de dois pés de
diâmetro, côncavo para diante, que é
preso ao corpo por correias de couro,
porque não tem nem braçadeiras nem asa.
Usam também um punhal ou um gládio.
A maior parte dos guerreiros veste
couraças de linho, e apenas alguns
cotas de malha e capacete de tríplice
cimeira. Mas em geral usam elmos de
nervos. Os peões calçam polainas de
couro e estão armados com lanças
de ponta de bronze.
Estrabão: Geografia 3.3.6[16][17]
Os guerreiros ibéricos são citados como tropas mercenárias na batalha de Hímera em 480 a.C.. Os mercenários ibéricos aparecem nos principais confrontos bélicos do Mediterrâneo, tornando-se num dos pilares dos exércitos do Mediterrâneo central. Estão presentes na batalha de Selinute, Agriento, Gela e Calamina. Surgem em outros conflitos na segunda guerra grego-púnica, na Sicília, em Siracusa, em Atenas e estão presentes na defesa de Esparta na batalha de Krimios, na Primeira Guerra Púnica, e com os púnicos no norte de África.[18]Tito Lívio (218 a.C.) descreve os Lusitanos pela primeira vez como mercenários ao serviço dos cartagineses na guerra contra os romanos.
Os lusitanos foram considerados pelos historiadores como hábeis na luta de guerrilhas. Eram indivíduos jovens na plenitude da sua força e agilidade e seleccionados entre os mais fortes. Neles recai a defesa da comunidade quando está ameaçada. A preparação militar dos jovens guerreiros [a] tinha lugar nas montanhas em lugares específicos.
"Em tempo de guerra eles marcham observando tempo e medida;e cantam hinos (paeans) quando estão prontos para investir sobre o inimigo"[6] batendo nos escudos à maneira ibérica.[19]

Mulheres guerreiras

Apiano relata que quando o pretor Brutus, ao perseguir Viriato, atacou as cidades da Lusitânia as mulheres lutavam e morriam valentemente lado a lado com os homens. Depreende-se que de alguma forma o treinamento militar também era dado às mulheres a quem recaia também a defesa dos castros.[20]

Iuventus lusitana

A iuventus, uma organização paramilitar que preparava os jovens para a guerra, era uma adaptação urbana das fraternidades guerreiras da idade do bronze. A iuventus lusitana[21] era formada por grupos de jovens,[22][23] que recebiam treinamento militar e que provavelmente serviam como militares de reserva na defesa dos castros. Organizações similares encontravam-se entre os celtas, celtiberos e romanos.[24][25] O massacre da "flos iuventutis"[26] lusitana, por Galba, desencadeou um conflito que ficou conhecido como a guerra lusitana.

Armas utilizadas pelo exército lusitano

Segundo Tito Lívio, são as seguintes as armas utilizadas pelo exército lusitano:
Armamento ofensivo usado na luta corpo a corpo
  • punhal de fio recto e antenas atrofiadas[29] ou afalcatado.
  • espadas[30] tinham um esmerado processo metalúrgico, com uma resistência e flexibilidade fora do comum para a época. Usavam a espada do tipo La Tène, a espada de antenas atrofiadas e a falcata.[31][32]
  • lança de ponta de bronze - segundo Estrabão, estas lanças eram de uma época antiga e supõe-se que a sua presença se devia a ainda serem usadas em rituais que teriam origem nas tradições das fraternidades guerreiras da idade do bronze.[33]
  • labrys,[34] machado de dupla lâmina que aparece em moedas romanas da lusitânia não parece que era usado pelos lusitanos mas pelos cantabros.
Armamento ofensivo de arremesso
Armamento defensivo

Elmo do tipo Montefortino. Usado durante a II Idade do Ferro na Península Ibérica e resto da Europa
  • caetra, pequeno escudo de dois pés de diâmetro que se manejava com a mão esquerda, era feito de madeira, couro, nervos trançados, bronze ou ferro, ficava suspenso por correias que eram manejadas habilmente para se defenderem dos dardos. Era decorado com o desenho de um labirinto, que se supõe ter sido um símbolo ou emblema étnico de reconhecimento entre os lusitanos.[35]
  • cota de malha era feita de pequenas argolas de ferro entrelaçadas, era pesada, e usada apenas por alguns guerreiros, provavelmente os líderes.
  • couraça de linho, o tipo de protecção mais usada, era mais leve e adaptada ao clima que as cotas de malha, e provavelmente mais barata.
  • elmos eram de couro, de nervos trançados ou de metal e parecidos com os dos celtiberos, do tipo montefortino,[36][37][38] elmos de três cimeiras (penas) de cor purpura.[39][40]
  • polainas eram feitas de couro para proteger as pernas.

Mapa da Lusitâniacidades romana e das suas principais
Os guerreiros lusitanos realizavam competições entre si, em que tomava parte a cavalaria e a infantaria; competiam em boxe, corridas, faziam combates de grupo e combates entre esquadras.[41]
Estrabão reconhecia que os lusitanos lutavam como peltastas,[42] e eram organizados e eficientes a posicionarem-se na linha de batalha ou a movimentarem-se concertadamente para posições estratégicas.[17]
As lutas dos lusitanos contra os romanos começaram como mercenários no exército púnico e depois reacenderam em 193 a.C.. Em 150 a.C. o pretor Sérvio Galba, após ter infligido grandes punições aos lusitanos, aceitou um acordo de paz com a condição de entregarem as armas, aproveitando depois para os chacinar. Isto fez lavrar ainda mais a revolta e, durante oito anos, os romanos sofreram pesadas baixas.
As guerras lusitanas acabaram com o assassínio traiçoeiro de Viriato por três aliados tentados pelo ouro romano. Mas a luta não parou e para tentar acabá-la Roma mandou à península o cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico, que fortificou Olisipo, estabeleceu a base de operações em Méron próximo de Santarém, e marchou para o Norte, matando e destruindo tudo o que encontrou até à margem do Rio Lima. Mas nem assim Roma conseguiu a submissão total e o domínio da Lusitânia. A tomada de Numância, na Celtibéria, pelos romanos, foi vista como um símbolo da resistência dos aliados dos lusitanos.

Estratégias militares


"O Basto" - estátua de um guerreiro lusitano do século I a. C
Os lusitanos não lutavam uma guerra defensiva. Pelo contrário, planeavam uma guerra ofensiva. Faziam campanhas de longa distância em que deslocavam as operações militares para diversos locais na península Ibérica, chegando mesmo até África.[43] A geografia destas operações militares mostra uma dupla intenção: assegurar o controle das regiões da Beturia e com isto ocupar posições chave que impedissem o avanço dos romanos, e punir as tribos aliadas dos romanos que eram consideradas traidoras,[44] além de destruir as bases operacionais que eram instaladas nestas cidades.[45][43]
A deslocação das operações militares para outra região implicava a divisão dos exércitos: havia exércitos que eram enviados para diversos locais na península, e exércitos que ficavam na Lusitânia a defender os castros. Compreende-se nesta divisão uma necessidade estratégica de defesa. Os romanos também dividiam os seus exércitos para cobrir uma região mais vasta, enviavam um contingente para a Hispânia Ulterior e outro para a Hispânia Citerior. Apiano relata um tipo de ataque concertado com duas frentes, em que dois exércitos consulares romanos, comandados por Luculus e Galba, invadiram de forma concertada duas regiões da Lusitânia. Estas acções concertadas frequentemente envolviam as tribos aliadas dos romanos.[43]
Nos confrontos militares com os povos da Grécia ou Ásia, a vitória ou derrota de uma guerra era decidida numa batalha, raramente em duas; a batalha era decidida pelo resultado da primeira carga e pelo choque dos dois exércitos. Pelo contrário, na Lusitânia a guerra era uma sucessão de batalhas apenas interrompidas pelo inverno, embora nem sempre; as batalhas só cessavam com o cair da noite, para continuar com vigor renovado no dia seguinte.[44]
O exército lusitano era formado por uma força combinada de cavalaria e infantaria, versado num tipo de combate híbrido: combatiam em campo aberto ou em terreno árduo e montanhoso.
Os romanos identificavam dois tipos de conflitos: latrocinium, quando eram utilizadas tácticas de guerrilha, quando as tribos aliadas aos romanos eram atacadas ou quando eram usados pequenos exércitos; e bellum, que implicava uma declaração de guerra conforme a tradição romana, o uso de um exército regular e combate em campo aberto.[46]
O controle táctico das unidades de combate era possivelmente feito com o uso de estandartes. Pela indicação de Tito Lívio, (134 estandartes num exército de 12.540 guerreiros),[47] cada estandarte deveria guiar unidades de cerca de noventa guerreiros lusitanos - unidades semelhante à centúria romana - ou apenas divisões por tribos, como faziam os Iberos. Os estandartes eram consagrados a uma divindade guerreira, Bandua.[48]
Segundo Júlio César, por ser inesperada e desconhecida dos legionários, a sua maneira de combater desorganizava completamente as fileiras romanas.[49]

Bronze de Alcântara, ou Tabula Alcantarensis, inscrição latina declarando a rendição incondicional ("deditio") ante os romanos do povo que habitava um castro entre o território dos Lusitanos e dos Vetões, 104 a.C., Cáceres.
Tácticas ofensivas
  • emboscadas.[50]
  • ataques surpresa.
  • ataques nas horas mais quentes do dia ou durante a noite.
  • concursare.[51][52]
  • súbita dispersão das tropas e posterior reagrupamento em local combinado.
  • formação em cunha ou v invertido - táctica usada pela cavalaria ibera e celtibera.
  • desmoralização do inimigo - nos castros dispunham como troféus, diversas insígnias, fasces e as túnicas militares conquistadas aos romanos.[53][54]
Tácticas defensivas
  • retiradas militares estratégicas.
  • translado de populações.
  • uso da cavalaria - formavam linhas à frente para retardar as tropas inimigas e proteger a retirada das suas próprias tropas.
  • terra queimada.

Estrutura dos povoados

As casas de pedra tinham forma redonda ou rectangular; eram cobertas de palha e ficavam situadas no alto de morros ou colinas, agrupando-se em aldeias - os castros citados pelos historiadores antigos.
As casas eram dispostas ordenadamente e formavam algo semelhante a bairros, organizados por famílias e subdivididos em diversos núcleos habitacionais que distribuíam-se em torno de um pátio, de acordo com a sua função. Incluíam cozinha com lareiras a forno, local de armazenagem de géneros, zonas de dormida, recinto para guarda de animais.[16]
A decoração das casas, em relevo e gravura, era feita com motivos geométricos, em forma de corda, de espinha, com círculos encadeados ou sinais espiralados, tríscelos e tetrascelos, cruciformes e serpentiformes.
Nos castros destacava-se um grande edifício de planta circular, para reuniões do conselho comunitário, com bancos ao redor. Havia ainda os balneários públicos para banhos frios e de vapor. As ruas eram calcetadas com pedras regulares.
Encontram-se dois tipos de castros: fortificados, cercados com muralhas defensivas feitas de grandes pedras, chegando a alcançar um quilómetro de perímetro; e abertos, sem estruturas de defesa visiveis.[55] Outros tipos de povoamentos eram os chamados de casais agrícolas. Verifica-se uma relação estreita entre a fortificação dos povoados e a exploração de metais, encontrando-se frequentemente conheiras e minas de filão perto de castros fortificados.[56]
Os instrumentos musicais incluíam a flauta e a trombeta, com que acompanhavam seus coros e danças, de que os romanos deixaram algumas descrições. Homens e mulheres bailavam em danças de roda, de mãos dadas.

Sociedade


Monumento a Viriato em Viseu, Portugal
A sociedade lusitana essencialmente guerreira denotava a presença de uma hierarquia social em que o guerreiro ocupava uma importante posição. Era uma sociedade aristocrática, na qual a maior parte da riqueza estava nas mãos de um grupo reduzido de pessoas. A presença de jóias e de armas nos túmulos indica a presença de uma elite guerreira.[57][58]
A organização da família lusitana revela uma estrutura gentílica da sua sociedade, era referida nas fontes epigráficas com a designação de gentes ou gentiliates. Os lusitanos encontravam-se unidos entre si por laços de sangue ou parentesco e não pelo território ocupado.[59]
O tipo de governo era a chefia militar, na qual o líder era eleito em assembleia popular, escolhido entre aqueles que se distinguiam pela coragem, valor, capacidade de liderança e vitórias obtidas em tempo de guerra. Os autores gregos referiam-se a estes chefes militares como hegoumenos, isto é, líder, chefe, e os romanos dux. No entanto, o nome de regnator (rei),[60] e principe,[61] também foram referidos. O hospitium, em que adoptavam-se estranhos na comunidade, é também considerado um costume dos lusitanos.
Apiano revela a existência de uma propriedade comunitária,[62] que para além de terras incluía cavalos, produtos agrícolas e diversos outros bens comunitários[63] incluindo um tesouro público, do qual fala Diodoro.[64] Esta propriedade comunitária deveria de coexistir a par da propriedade privada. Os lusitanos eram um povo autónomo (grego: αὐτονόμων), com leis próprias.[65]
Os lusitanos tinham o hábito de frequentar salas onde iam untar o corpo com óleos duas vezes ao dia, tomavam banhos de vapor que emanavam de pedras aquecidas. Lançavam água sobre pedras ao rubro e tomavam em seguida um banho frio. Os balneários eram decorados com gravuras em baixo relevo, como indicam os monólitos Pedra Formosa encontrados em sítios arqueológicos castrejos. Estrabão comenta que viviam de uma maneira simples e limpa semelhante à dos lacedemônios. [41]
As refeições em que os Lusitanos se juntavam, apenas uma vez por dia, tinham lugar numa sala onde sentavam-se em bancos móveis, encostados à volta das paredes da sala. A disposição dos bancos obedecia a uma hierarquia que colocava na frente os de mais idade e seguia uma ordem consoante a posição social.[41]
O alimento mais característico era o pão de bolota ou glande de carvalho;[66] bebiam leite de cabra e cerveja de cevada, reservando o vinho para as festas, com uma produção desde a época pré-romana.[67] Caça, pesca (usavam barcos feitos de couro, ou de um tronco de árvore), produção de gado bovino e equino, produção de mel e lã, assim como trigo, cevada, linho e mineração, eram actividades referenciadas.[68] O custo de vida era muito barato, no século II a.C., os produtos de pesca, ovinos, caprinos e agrícolas abundantes e as peças de caça eram dadas de graça a quem comprava alguns destes produtos.[69]
O escambo era usado nas regiões do interior, onde também usavam peças cortadas de prata batida como dinheiro. Os homens vestiam-se de preto e usavam capas simples, as mulheres capas compridas e vestidos de cores vivas. Os homens usavam os cabelos compridos, como as mulheres, mas que prendiam à volta da testa quando combatiam.[41] Eram tipicamente monogâmicos, casavam-se em cerimónias com rituais semelhantes aos dos gregos. [70]

Culto religioso


Escultura de mármore de Atégina, deusa do renascimento (Primavera), fertilidade, naturezacura na mitologia lusitanaVila Viçosa) e (Museu do Mármore,
Os lusitanos praticavam sacrifícios humanos e, quando o sacerdote feria o prisioneiro no ventre, faziam-se vaticínios segundo a maneira como a vítima caía. Sacrificavam a Ares, deus da guerra, não só prisioneiros, como igualmente cavalos e bodes. Os sacerdotes, a quem Estrabão chama de hieroskópos, segundo a hipótese de alguns autores, fariam parte de um grupo de pessoas reconhecidas pelo seu prestígio, sabedoria e experiência.[71]
Os locais de culto funerários, de grande interesse para os arqueólogos, encontram-se por todo o território da antiga Lusitânia. Do período paleolítico, conhecem-se cemitérios onde os corpos estavam dispostos com restos de alimentos, utensílios e armas; do megalítico abundam os dólmens, conhecidos em Portugal como antas ou mamoas - porque os montículos de terra que se acumularam sobre eles criaram essa forma arredondada.
Os santuários eram erigidos nas massas rochosas de locais com certo domínio da paisagem, à beira de cursos de água ou junto a montes.[72][73] Nestes santuários encontram-se cadeirões de pedra, pias e altares, como no Castelo do Mau Vizinho, no Santuário da Rocha da Mina, no Cadeirão da Quinta do Pé do Coelho, ou no Penedo dos Mouros.[74]
Também na área lusitana verifica-se a presença de estátuas chamadas berrões, que assume-se terem sido utilizadas para fins de carácter religioso. Supõe-se que seriam animais sagrados.

WIKIPÉDIA

1 - OS CELTAS







Distribuição diacrônica dos povos celtas::
██ núcleo do território Hallstatt, por volta do século VI a.C.
██ expansão máxima dos celtas, por volta do século III a.C.
██ área lusitana da península ibérica onde a presença dos celtas é incerta
██ as "seis nações célticas" que mantiveram um número significativo de falantes celtas na Idade Moderna
██ áreas onde as línguas celtas continuam a ser faladas hoje
Tópicos indo-europeus
Línguas indo-europeias
Albanês · Anatólio · Armênio
Báltico · Céltico · Dácio · Germânico
Grego · Indo-Iraniano · Itálico · Frígio
Eslavo · Trácio · Tocariano
Povos indo-europeus
Albaneses · Anatólios · Armênios
Bálticos · Celtas · Germanos
Gregos · Indo-arianos · Indo-Iranianos
Iranianos · Ítalos · Eslavos
Trácios · Tocarianos
Proto-indo-europeus
Língua · Sociedade · Religião
Hipóteses Urheimat
Hipótese Kurgan · Hipótese anatólia
Hipótese armênia · Hipótese indiana · TCP
Estudos indo-europeus
Celtas é a designação dada a um conjunto de povos, um etnónimo, organizados em múltiplas tribos, pertencentes à família linguística indo-europeia que se espalhou pela maior parte do oeste da Europa a partir do segundo milénio a.C.. A primeira referência literária aos celtas (Κελτοί) foi feita pelo historiador grego Hecateu de Mileto no século VI a.C..
Boa parte da população da Europa ocidental pertencia às etnias celtas até a eventual conquista daqueles territórios pelo Império Romano; organizavam-se em tribos, que ocupavam o território desde a península Ibérica até a Anatólia. A maioria dos povos celtas foi conquistada, e mais tarde integrada, pelos Romanos, embora o modo de vida celta tenha, sob muitas formas e com muitas alterações resultantes da aculturação devida aos invasores e à posterior cristianização, sobrevivido em grande parte do território por eles ocupado.
Existiam diversos grupos celtas compostos de várias tribos, entre eles os bretões, os gauleses, os escotos, os eburões, os batavos, os belgas, os gálatas, os trinovantes e os caledônios. Muitos destes grupos deram origem ao nome das províncias romanas na Europa, as quais que mais tarde batizaram alguns dos estados-nações medievais e modernos da Europa.
Os celtas são considerados os introdutores da metalurgia do ferro na Europa, dando origem naquele continente à Idade do Ferro (culturas de Hallstatt e La Tène), bem como das calças na indumentária masculina (embora essas sejam provavelmente originárias das estepes asiáticas).
Do ponto de vista da independência política, grupos celtas perpetuaram-se pelo menos até ao século XVII na Irlanda, país onde por seu isolamento, melhor se preservaram as tradições de origem celta.[1] Outras regiões europeias que também se identificam com a cultura celta são o País de Gales, uma entidade sub-nacional do Reino Unido, a Cornualha (Reino Unido), a GáliaFrança, e norte da Itália), o norte de Portugal e a Galiza (Espanha). Nestas regiões os traços linguísticos celtas sobrevivem nos topônimos, nalgumas formas linguísticas, no folclore e nas tradições. (
A influência cultural celta, que jamais desapareceu, tem mesmo experimentado um ciclo de expansão em sua antiga zona de influência, com o aparecimento de música de inspiração celta e no reviver de muitos usos e costumes conhecidos atualmente como Celtismo.






Nomes e terminologia


O Gaulês Agonizante, uma das mais famosas representações artísticas dos celtas.

Estela funerária: Apana · Ambo/lli · f(ilia) · Celtica /Supertam(arica) · / [j] Miobri · /an(norum) · XXV · h(ic) · s(ita) · e(st) · /Apanus · fr(ater) · f(aciendum)· c(uravit) ·.
Na Antiguidade os celtas foram conhecidos por três designações diferentes, pelos autores greco-romanos: celtas (em latim Celtae, em grego Κελτοί, transl. Keltoí); gálatas (em latim galatae, em grego Γαλάται, transl. Galátai); e galos ou gauleses (latim gallai, galli; grego Γάλλοί, transl. Galloí)celtae; os povos da Irlanda e das ilhas Britânicas, nunca foram designados por celtas, nem pelos romanos nem por si próprios,] eram chamados de Hiberni (hibérnios) e Britanni (bretões), respectivamente, e só começaram a ser chamados de celtas no século XVI d.c.. No De Bello Gallico, Júlio César comentou que o nome "celta" era a maneira pela qual os gauleses chamavam-se a si próprios na "língua celta" (lingua Celtae). Pausânias comentou ainda que os gauleses não só se chamavam a si mesmos de celtas como era também por este nome que os outros povos os conheciam. A atestar este facto temos evidência na epigrafia funerária onde se confirma que havia povos chamados de celtas que se identificavam como tal, nomeadamente os Supertamarici. Plínio o velho registou que os habitantes de Miróbriga usavam o sobrenome de Celtici: "Mirobrigenses qui Celtici cognominantur". No santuário de Miróbriga um habitante deixa gravado a sua origem celta: Os romanos se referiam apenas aos celtas continentais como:
D(IS) M(ANIBUS) S(ACRUM) / C(AIUS) PORCIUS SEVE/RUS MIROBRIGEN(SIS) / CELT(ICUS) ANN(ORUM) LX / H(IC) S(ITUS) E(ST) S(IT) T(IBI) T(ERRA) L(EVIS)
A raiz do termo "celta" aparece como elemento dos nomes próprios nativos da Gália, Celtillos, e da península Ibérica, Celtio, Celtus, Celticus; nos nomes tribais, célticos, celtiberos; e nos topónimos, Celti, Céltica,Céltigos e Celtibéria.
Existem duas principais definições do termo celta, uma dada pelos autores da Antiguidade e uma definição moderna, criada por autores contemporâneos. A definição moderna do termo celta tem significados diferentes em contextos diferentes; linguistas, antropólogos, arqueólogos, historiadores, folcloristas todos o usam de forma diferente revelando discrepâncias entre os diferentes conceitos.
A validade de empregar o termo celta, para além da definição dada pelos autores greco-romanos da Antiguidade, é polémica e já era contestada por autores do século XIX.
Segundo os linguistas, são celtas os povos que falaram ou falam uma língua celta,[ e, por associação, são celtas as terras onde eles vivem.[ Segundo esta teoria, os povos celtas que deixaram de falar uma língua celta também deixaram de ser designados de celtas.
Em arqueologia determinou-se chamar de celtas os povos que partilham uma cultura material e um estilo de arte específico. Associam-se as culturas de Hallstatt e La Tène às culturas celtas e proto-celtas. Definem-se como celtas os povos das áreas da Europa continental, da Irlanda e das Ilhas Britânicas que partilharam estas culturas.

A localização dos Celtas segundo os autores da Antiguidade

  • Século VI a. C
Os celtas são referidos pela primeira vez na literatura grega por Hecateu de Mileto. Da sua obra sobrevivem fragmentos muito curtos sobre os celtas. Escreve que o país celta fica perto de Massalia, uma colónia de comerciantes gregos. Refere-se a Narbona como uma cidade de comercio celta, e a Nirax como uma cidade celta.
Cquote1.svg Massalia: cidade da Liguria perto do país celta, uma colónia dos foceus.[] Narbona: centro de comercio e cidade dos celtas. Nírax: cidade celta Cquote2.svg
'
  • Século V a.C.
Segundo Heródoto a localização dos Celtas era para além dos Pilares de Hércules e vizinha dos Conii.
Cquote1.svg Os Keltoi vivem para além dos Pilares de Hercules, sendo vizinhos dos Cynesii, e são a mais ocidental de todas as nações que habitam a Europa". Cquote2.svg
Herodoto, II, 33[31]
Cquote1.svg O rio Ister nasce na terra dos Keltoi na cidade de Pyrene e percorre o centro da Europa. Os Keltoi vivem além das colunas de Hércules, sendo vizinhos do Kynesioi, e são a mais ocidental de todas as nações que habitam a Europa.E assim, se estendem por toda a Europa até ás fronteiras da Cítia Cquote2.svg
  • Século III a.C.
Eratóstenes situava os Celtas na parte ocidental da Europa, segundo o comentário de Estrabão.
Cquote1.svg Eratóstenes diz que até Gades, o exterior (SC. da Iberia) é habitado pelos galatas; e se a parte ocidental da Europa é ocupada por eles esqueceu-se deles na sua descrição da Ibéria, nunca faz menção aos galatas. Cquote2.svg
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  • Século I a.C.
Diodoro refere a diferença das denominações dada aos celtas por romanos e gregos.
Cquote1.svg E agora, será útil fazer uma distinção que é desconhecida de muitos: Os povos que habitam no interior, acima de Massalia, os das encostas dos Alpes, e os deste lado das montanhas dos Pirinéus são chamados de celtas, ao passo que os povos que estão estabelecidos acima desta terra Céltica, nas partes que se estendem para o norte, ambas ao longo do oceano e ao longo da Montanha Hercinia , e todos os povos que vêm depois destas, tão longe quanto Cítia, são conhecidos como gauleses, os romanos, no entanto, incluem todas estas nações juntando-as debaixo de um único nome, chamando-as de uma, e a todos de gauleses. Cquote2.svg
Sobre a terra dos Celtas
A primeira referência à terra dos Celtas, Céltica, é provavelmente do geógrafo Timageto.
Cquote1.svg [...]o Fasis [e o Istro] procedem dos montes Ripeos, que são da terra keltica, e logo vão desaguar numa lagoa dos celtas Cquote2.svg
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Estrabão indica a informação que Ephorus possuia sobre a terra dos celtas.
Cquote1.svg Ephorus, em seus relatos, faz Céltica tão excessiva em seu tamanho, que ele atribui às regiões da Céltica a maioria das regiões, tão longe quanto Gades, no que hoje chamamos península Ibérica" Cquote2.svg
Estrabão, IV, 4, 6

Demografia

As origens dos povos celtas são motivo de controvérsia, especulando-se que entre 1900 e 1500 a.C.danubianos neolíticos e de povos de pastores oriundos das estepes.[36] Esta incerteza deriva da complexidade e diversidade dos povos celtas, que além de englobarem grupos distintos, parecem ser a resultante da fusão sucessiva de culturas e etnias. Na península Ibérica, por exemplo, parte da população celta se misturou aos iberos, o que resultou no surgimento dos celtiberos.[37][38] tenham surgido da fusão de descendentes dos agricultores
Todavia, estudos genéticos realizados em 2004 por Daniel Bradley,[39] do Trinity College de Dublin, demonstraram que os laços genéticos entre os habitantes de áreas célticas como Gales, Escócia, Irlanda, Bretanha e Cornualha são muito fortes e trouxeram uma novidade: a de que, de entre todos os demais povos da Europa, os traços genéticos mais próximos destes eram encontrados na península Ibérica.
Daniel Bradley explicou que sua equipe propunha uma origem muito mais antiga para as comunidades da costa do Atlântico: pelo menos 6000 anos atrás, ou até antes disso. Os grupos migratórios que deram origem aos povos celtas do noroeste europeu teriam saído da costa atlântica da península Ibérica nos finais da última Idade do Gelo e ocupada as terras recém libertadas da cobertura glacial no noroeste europeu, expandindo-se depois para as áreas continentais mais distantes do mar.
O geneticista Bryan Sykes confirma esta teoria no seu livro Blood of the Isles (2006), a partir de um estudo efectuado em 2006 pela equipe de geneticistas da Universidade de Oxford. O estudo analisou amostras de ADN recolhidas de 10 000 voluntários[40] do Reino Unido e Irlanda, permitindo concluir que os celtas que habitaram estas terras, — escoceses, galeses e irlandeses —, eram descendentes dos celtas da península Ibérica que migraram para as ilhas Britânicas e Irlanda entre 4.000 e 5.000 a. C.[41][42]
Outro geneticista da Universidade de Oxford, Stephen Oppenheimer, corrobora esta teoria no seu livro "The Origins of the British" (2006). Estes estudos levaram também à conclusão de que os primitivos celtas tiveram a sua origem não na Europa Central, mas entre os povos que se refugiaram na península Ibérica durante a última Idade do Gelo.[43]
Estudos da Universidade do País de Gales defendem que as inscrições encontradas em estelas no sudoeste da península Ibérica demonstram que os celtas do País de Gales vieram do sul de Portugal e do sudoeste de Espanha.[44][45]

WIKIPÉDIA

(continua próximo domingo)

S. O. S. - "AJUDA DE BERÇO"

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Em 13 anos esta instituição acolheu perto de 200 bebés que foram assistidas nas duas pequenas casas onde exerce a sua actividade de assistência.


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