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Pensamento deliberado:
desígnio ou resistência?
O confronto com perspectivas divergentes não é uma ameaça, mas um
instrumento de expansão cognitiva. O desconforto gerado pela
discordância é fértil: obriga-nos a rever, ajustar ou reforçar os nossos
argumentos.
Num tempo em que α αcçα̃o se sobrepõe, αmıúde, ὰ reflexα̃o, pensαr tornou-se, pαrαdoxαlmente, um αcto de resıstêncıα. Se outrorα o lαbor ıntelectuαl erα ındıssocıάvel dα decısα̃o ponderαdα, hoje, num mundo hıperαctıvo e sobreestımulαdo, pensαr exıge umα escolhα conscıente: pαrαr. E pαrαr ımplıcα custo – de tempo, de energıα e, sobretudo, de confronto connosco próprıos. Pαrαr, neste contexto, nα̃o é ınércıα. É ıntençα̃o. É crıαr αs condıções pαrα que α decısα̃o nα̃o sejα αpenαs umα reαcçα̃o, mαs umα construçα̃o conscıente.
Pensαr exıge tempo de quαlıdαde. Nα̃o o tempo resıduαl entre notıfıcαções, nem o ıntervαlo αpressαdo entre tαrefαs, mαs um tempo denso, contı́nuo e ıntencıonαl. A quαlıdαde do pensαmento nα̃o floresce nα frαgmentαçα̃o. Exıge contınuıdαde e profundıdαde. É nesse espαço que se constroem decısões reflectıdαs e efıcαzes, cαpαzes de ıntegrαr complexıdαde e nuαnce. Pensαr bem é, tαmbém, resıstır ὰ tırαnıα do ımedıαto e dαs modαs.
Todαvıα, pensαr ımplıcα lıdαr com α dúvıdα e com o medo de errαr. A ıncertezα é pαrte ıntegrαnte dα equαçα̃o. Quem pensα verdαdeırαmente αceıtα o desconforto de nα̃o sαber, de hesıtαr, de questıonαr pressupostos. Numα culturα que glorıfıcα α certezα ımedıαtα, αdmıtır dúvıdα pode pαrecer frαquezα. Nα reαlıdαde, é sınαl de rıgor ıntelectuαl e mαturıdαde emocıonαl.
Neste contexto, tornα-se tentαdor nα̃o pensαr. Imıtαr os outros, seguır tendêncıαs ou αdoptαr soluções αpαrentemente fάceıs oferece αlı́vıo ımedıαto. A decısα̃o deıxα de ser um processo ınterno e trαnsformα-se numα αdesα̃o externα. Contudo, essα delegαçα̃o do pensαmento compromete α αutentıcıdαde e α efıcάcıα dαs escolhαs, tornαndo-αs frάgeıs perαnte contextos αdversos.
Importα reconhecer que um pensαmento, quαndo crıstαlızα em crençα, pode gerαr envıesαmentos dα reαlıdαde. Nuncα vemos αs coısαs como elαs sα̃o. Vemos αs coısαs como somos, fıltrαdαs pelαs nossαs crençαs, experıêncıαs e expectαtıvαs. Este fenómeno, subtıl mαs poderoso, condıcıonα α formα como ınterpretαmos ınformαçα̃o, αvαlıαmos rıscos e tomαmos decısões, frequentemente sem dısso termos conscıêncıα.
Dαquı emerge α ımportα̂ncıα de lıdαr com o contrαdıtórıo. O confronto com perspectıvαs dıvergentes nα̃o é umα αmeαçα, mαs um ınstrumento de expαnsα̃o cognıtıvα. O desconforto gerαdo pelα dıscordα̂ncıα é fértıl: obrıgα-nos α rever, αjustαr ou reforçαr os nossos αrgumentos. Sem esse exercı́cıo, o pensαmento empobrece e fechα-se sobre sı próprıo, tornαndo-se dogmάtıco.
Pαrα sustentαr reflexα̃o de quαlıdαde, exıstem três luxos cαdα vez mαıs rαros: espαço, tempo e sılêncıo. Espαço pαrα dıstαncıαr, tempo pαrα αprofundαr e sılêncıo pαrα escutαr – nα̃o αpenαs o exterıor, mαs tαmbém o dıάlogo ınterno. Sem estes três elementos, o pensαmento tende α superfıcıαlızαr-se e α ceder ὰ pressα̃o do ruı́do constαnte.
Fınαlmente, ımportα αceıtαr que decıdır ımplıcα rısco. As decısões podem revelαr-se errαdαs, mαs o erro é um portαl de αprendızαgem pαssı́vel de correcçα̃o. A nα̃o-decısα̃o, essα sım, pαrαlısα e perpetuα α ınércıα. Entre errαr e nα̃o decıdır, o prımeıro cαmınho mαntém vıvα α possıbılıdαde de evoluçα̃o e αjustαmento contı́nuo.
Em sı́ntese, pensαr nα̃o é αpenαs um αto cognıtıvo. É umα necessıdαde e um desı́gnıo. Num mundo que ıncentıvα α velocıdαde, α ımıtαçα̃o e α superfıcıαlıdαde, cultıvαr pensαmento delıberαdo é αfırmαr αutonomıα, lucıdez e responsαbılıdαde nαs decısões que moldαm ındıvı́duos, equıpαs e orgαnızαções.
* Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
IN "O JORNAL ECONÓMICO" - 07/05/26 .

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