28/04/2026

CARLA SOFIA LUZ

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Para onde foram
os baloiços

Quem vive com a infância dentro de portas e tem de cumprir a rota dos parques infantis públicos, sabe bem a felicidade que se abre nos rostos pequeninos quando avistam um baloiço vazio. É garantida a desenfreada correria para tomar o lugar vago. Coisa rara e preciosa. O baloiço - esse equipamento que se tornou maldito e tem vindo a desaparecer da via pública - está entre os aparelhos mais amados pelas crianças.

Qualquer frequentador habitual de um parque infantil constata que este brinquedo - seja qual for a sua forma - tem sempre fila de espera. Hoje reconhece-se o baloiço como uma poderosa ferramenta para estimular o sistema vestibular e, assim, regular as emoções das crianças, reduzindo a ansiedade e a agitação. No entanto, é uma espécie em extinção nos parques infantis do nosso país. Sobram escorregas, estruturas de escalada e brinquedos que se agitam de um lado para o outro com limitado enfado. Nada de baloiços.

Cada vez mais, os parques infantis parecem desenhados para serem produtos de apelo estético, sonhado por um adulto embevecido pela sua originalidade, e sem real funcionalidade para quem os usa. Entre amálgama de ferros ao alto, com cordas e borrachas que disparam da estrutura, sobram olhares de hesitação que tropeçam na dúvida: como é que vamos usar isto? E, tal como em muitas outras situações, a roda já está inventada e não precisa de ser redescoberta.

Basta percorrer a costa da Galiza para perceber que, para os galegos, o espaço público não se faz apenas de passadiços. Constrói-se com áreas de desporto informal e parques infantis, com baloiços de formatos diversos - incluindo para bebés, adulto-bebé e crianças com limitações motoras e cognitivas -, trampolins e pequenos slides. E já agora, convém que os parques sejam, de facto, espaços de proximidade, que bisem pelo território urbano, e não seja preciso entrar num automóvel e percorrer vários quilómetros para encontrá-los.
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* Jornalista. Editora-executiva-adjunta do JN

IN "JORNAL DE NOTÍCIAS" - 28/04/26.

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