18/05/2020

LEONOR ROSAS

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Por um ensino superior
feminista

Como feministas, devemos rejeitar uma estrutura de produção e transmissão do conhecimento que reproduza estereótipos, discriminações e violências de género.

As nossas universidades e politécnicos são ainda espaços nos quais a desigualdade de género está profundamente enraizada. A gestão e a direcção das instituições e o topo da carreira académica são ainda domínios altamente masculinizados. Simultaneamente, os currículos e os espaços de ensino são ainda dominados por um “olhar masculino” e por uma prevalência do sexo masculino. Como feministas, devemos rejeitar uma estrutura de produção e transmissão do conhecimento que reproduza estereótipos, discriminações e violências de género.

Em relação quer a matrículas, quer a conclusão de um curso no ensino superior, constatamos que as mulheres estão em maior número. Em todos os graus — licenciatura, mestrado ou doutoramento —, as mulheres são mais diplomadas. Apesar disto, tanto dentro como fora das instituições de ensino superior, somos quem ganha menos e quem menos acesso tem aos cargos de liderança. No mundo do trabalho, somos as mais expostas à precariedade e ganhamos cerca de menos 22% do que os homens e, por exemplo, somos apenas 6% dos conselhos de administração das nossas empresas. A desigualdade salarial faz com que as mulheres recebam o equivalente a menos 54 dias de trabalho do que os homens (link is external).

Ora, as instituições de ensino superior não fogem a esta regra: as mulheres, tendo menor acesso ao topo da carreira e a cargos de direcção, não estão em pé de igualdade com os colegas homens. Entre os 31 presidentes ou reitores das universidades e politécnicos portugueses, apenas cinco são mulheres (ISCTE, UCP, UAberta, UÉvora e IPCA). No que toca aos corpos docentes, os dados podem ser enganadores. Regra geral, existe uma relativa paridade entre homens e mulheres: em 2018, 55% dos docentes eram do sexo masculino e 45% do feminino. No entanto, esta paridade cinge-se maioritariamente à base da carreira. Ou seja, existe um grande número de professoras auxiliares e adjuntas. No topo da carreira, a situação é bem diferente: apenas uma em cada quatro professores catedráticos (25%) é do sexo feminino.

Uma das questões que mais continua a pesar é a da maternidade. As mulheres são ainda forçadas a escolher entre a maternidade e uma carreira académica de excelência, mesmo em famílias que não são monoparentais. Os homens, mesmo sendo pais, continuam a não ser confrontados com esta escolha, pois o trabalho doméstico e de cuidar das crianças continua a recair maioritariamente sobre as mulheres. Assim, estas estão expostas a uma dupla jornada de trabalho – como cientistas e como mães –, o que dificulta o seu estudo e a sua produção intelectual.

No ensino superior, continua a existir uma diferença substancial no capital simbólico atribuído aos cursos ditos “femininos” face aos ditos “masculinos”. Enfermeira ou educadora de infância são profissões às quais nos referimos no feminino pois são áreas tipicamente associadas às mulheres. Simultaneamente, são áreas desvalorizadas face à medicina (o médico) ou à docência no ensino superior (o professor). Historicamente, as mulheres foram relegadas para o papel de enfermeiras que funcionam, neste imaginário social machista, como uma espécie de ajudante do médico.

Durante o Estado Novo, ser professora primária era uma das poucas opções profissionais reservadas às mulheres. Ensinar crianças a ler e a escrever era considerada uma tarefa que casaria bem com a feminilidade e essência maternal das mulheres. Por outro lado, a vida das professoras primárias era altamente controlada e regrada. Pelo contrário, cursos como a Engenharia ou a Arquitectura são ainda cursos ditos “de homem”, nos quais as matemáticas e as ciências exactas, tendo grande importância, são consideradas como demasiado complexas para as mulheres.

Nas faculdades que leccionam esses cursos prevalece ainda um ambiente de masculinidade tóxica e de desvalorização do trabalho das mulheres. As estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) fizeram recentemente uma campanha na qual expuseram os insultos misóginos proferidos por professores e colegas homens — desde o assédio sexual à afirmação de uma natureza feminina inferior. Um dos exemplos mais chocantes que estas estudantes partilharam foi o de um professor que diz às suas alunas: “Mulheres em arquitectura só se for em cima do estirador”. 

Desde o ensino básico que nos apontam quais os cursos “masculinos” e “femininos”, que ouvimos piadas sobre as mulheres que se aventuram no mundo dos cursos destinados a homens: são frígidas, nenhum homem as vai querer, devem ser lésbicas. Isto incute em nós, desde pequenas, um sentimento de incapacidade e leva-nos a fazer escolhas diferentes das que faríamos se não fossem os preconceitos com quais crescemos.

No espaço das instituições de ensino superior estamos expostas a todo o tipo de violência sexual. Por um lado, as mulheres (alunas, docentes ou investigadoras) são vítimas de assédio por parte de professores e colegas: escutam piropos e comentários sobre a roupa e aparência e podem chegar a ser alvo de toques indesejados. Muitas vezes, são os próprios colegas homens que insinuam que os nossos resultados académicos se devem à nossa aparência física ou mesmo a favores sexuais. Por outro lado, a praxe perpetua fenómenos de violência machista. As raparigas são obrigadas a participar em actividades de cariz sexual humilhantes e os cânticos reproduzem a cultura da violação e estereótipos homofóbicos e misóginos. A violência sexual não pode ser tolerada dentro destes espaços. É imperativo que as vítimas possam denunciar os agressores (sejam professores ou colegas) e que as suas queixam não sejam desvalorizadas e remetidas para uma espiral infinita de burocracia.

O próprio conhecimento é iminentemente masculino. Os nossos currículos secundarizam a produção teórica das mulheres (e das pessoas não brancas), invisibilizando autoras que deram contributos importantes aos diferentes campos disciplinares. Simultaneamente, a produção científica das mulheres parece interessar apenas quando trata temas relacionados com a condição feminina. A modernização teórica que os nossos currículos necessitam não passa apenas por tornar visíveis as mulheres como sujeitos políticos e dar destaque às suas lutas, mas também por incorporar autoras do sexo feminino e dar espaço às teorias feministas. As análises feministas nas ciências sociais permitem-nos ter uma melhor compreensão das dinâmicas das violências sofridas pelas mulheres e das importantes lutas que foram travadas.

A luta feminista urge ser travada no campo da Academia, da ciência e das nossas instituições de ensino superior. Estudantes, professoras e investigadoras deparam-se com preconceitos, desigualdades e violências que lhes vedam o caminho a um pleno desenvolvimento pessoal, intelectual e profissional. As faculdades devem ser espaços livres de opressões nos quais nos sentimentos seguras e onde não queremos ouvir comentários como: “As mulheres são como os diplomatas: quando dizem não querem dizer sim e quando dizem sim querem dizer não”. Apesar das dificuldades, nos últimos anos, cientistas, professoras e investigadoras têm vindo a afirmar teorias e escolas de pensamento feministas e a lutar pelo devido reconhecimento do seu trabalho científico.

Queremos que o conhecimento seja emancipatório e feminista e que as nossas instituições permitam que todas as mulheres se possam desenvolver livremente. Uma universidade verdadeiramente democrática e livre de opressões tem, necessariamente, de ser feminista.

 * Activista estudantil

IN "PÚBLICO"
11/05/20

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